sábado, 12 de abril de 2008

"Educação não é Mercadoria!"

*Artigo de Cláudio de Moura Castro, edição 2055 da revista Veja.

Aluno não é "matéria-prima". Nem "cliente"! Escola não é empresa! O "produtivismo" é inaceitável. E por aí afora. Educadores fervorosos não se cansam de denunciar a mercantilização do ensino. As palavras são usadas como tacapes, na esperança de abater os infiéis. Existem tais assombrações?

Há escolas que se declaram empresas (e ninguém demonstrou se são melhores ou piores do que as demais). Porém, o presente ensaio não se dirige a elas. Em vez disso, considera a "empresa" como uma metáfora para entender o "processo produtivo" (mais uma heresia!) de qualquer escola. Tais conceitos se revelaram úteis na economia e podem ser aplicados na educação pública, mesmo sem considerá-la como atividade empresarial.

As empresas têm toda a liberdade de definir o seu "produto". Rolls-Royces? Ladas? Cirurgias cardíacas? Rolex? Relógios de camelô? As escolas também: ensino para poucos? Ou para muitos? Ensino de violino? Uma vez definido o produto, faz todo o sentido obter o máximo resultado com o mínimo de gastos. Isso vale na "fabricação" de hóstias, seminaristas, doutores ou macarrão. Igualmente, é preciso controlar a qualidade e avaliar os resultados. Para isso, há inspetores de qualidade na fábrica e a Prova Brasil na educação. Nas artes, consideram-se os prêmios. Se isso é "produtivismo", três vivas para ele.

Das empresas bem administradas afloram conselhos proveitosos para as escolas: clareza ao definir (poucas) metas e assegurar que sejam compartilhadas (por diretores, alunos e professores); avaliação dos processos; e a regra pétrea de que é preciso tomar providências quando os resultados não correspondem ao esperado. Nada disso fere a sacrossanta nobreza da educação nem a complexidade e a delicadeza dos seus processos. De fato, as melhores escolas seguem tal figurino.

Mas podemos ir mais longe, tomando como metáfora o mais poderoso motor da economia de mercado: o lucro ou sua nêmesis, o prejuízo. É fenomenal o poder de prêmios para quem faz melhor e puxões de orelha para quem pisa na bola.

À primeira vista, trata-se de uma heresia a ser afastada das escolas públicas. Mas o lucro é apenas uma das manifestações de bons resultados. A metáfora sugere o vínculo entre desempenho e recompensa. Em vez de lucro, o sucesso pode ser mais pontuação na Prova Brasil. Ou menos deserção. Ou mais alunos aprovados na OAB.

De fato, não é preciso que haja mercados para que existam incentivos. Dentro da empresa não há mercados. O montador do automóvel não compra as peças do almoxarife e depois vende o carro. Por essa razão, as empresas criam incentivos e penalidades para os funcionários, visando a motivar seu comportamento. Está nas livrarias o livro 1001 Maneiras de Premiar Seus Colaboradores.Tais regras internas não são desconhecidas das escolas e vão das medalhas até as medidas drásticas de expulsão.

Obviamente, errando nos prêmios provocamos impactos desastrados. Se apenas penalizamos a repetência, isso pode gerar a aprovação indiscriminada e uma degradação do ensino. É preciso recompensar também a qualidade (como faz o Ideb).

Não se trata de um mercado no sentido convencional, mas do que foi chamado (pelo economista Albert Hirschman) de "quase-mercado". Onde ele não existe, cria-se uma metáfora do mercado, com metas concretas, prêmios e penalidades para que os desvios sejam automaticamente corrigidos.

Até mesmo os incentivos financeiros podem estar presentes no ensino público. Em menos de meio século o Brasil saiu de uma produção científica próxima de zero e tornou-se hoje o 15º maior "fabricante" de ciência. Sua pós-graduação passou a produzir anualmente quase 10 000 doutores e 40 000 mestres, uma das maiores colheitas do globo. O segredo? Prêmio ou puxão de orelha, acoplados a uma avaliação para decidir quem ganha qual. Há bolsas da Capes e do CNPq, há amplo financiamento da Finep, da Fapesp e de outras agências. Quem brilha ganha mais. Quem tropeça perde. A pós-graduação (que não foi privatizada) opera em um "quase-mercado" criado com inteligência, e que tem apresentado bons exemplos para o restante da educação.

terça-feira, 1 de abril de 2008

São Paulo e Paraná

*Excelente artigo de J.R. Guzzo, edição 2054 da revista Veja.

"Nenhuma menção foi feita pelo presidente, enfim, ao fato de que Severino, após renunciar, tentou voltar à Câmara nas eleições de 2006. Não poderia haver oportunidade melhor para o povo de Pernambuco, com a força do voto livre e secreto, corrigir a injustiça feita pela elite de São Paulo e do Paraná, dando um novo mandato ao ex-deputado. Mas o povo de Pernambuco não quis dar um novo mandato ao ex-deputado"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chefiou na semana passada, numa visita a Pernambuco, um desses eventos que mantêm o Brasil entre os primeiros colocados do mundo em termos de ISH, ou Índice de Subdesenvolvimento Humano, no exercício do governo. Mais uma vez, foi seguido à risca o Manual das Piores Práticas em vigor na política brasileira: platéia formada por gente humilde, recompensada com um lanche para bater palmas e entregue ao pé do palanque por ônibus fretados com o dinheiro de prefeituras amigas. Junto ao presidente, no coreto reservado às autoridades, estava o habitual cordão dos puxadores de aplauso. Até aí, tudo de acordo com o procedimento-padrão que garante, desde sempre, o atraso na vida política do Brasil, e que conta com a entusiasmada adesão do governo atual. Mas o presidente da República, nessa ocasião, resolveu compartilhar com o público algo que ninguém sabia até agora. Segundo ele, o ex-presidente da Câmara e ex-deputado pernambucano Severino Cavalcanti, presente na platéia, perdeu a presidência e o mandato, em setembro de 2005, por ter ficado amigo do governo, em vez de unir-se à oposição. Mais: quem fez isso foram as elites de São Paulo e do Paraná. Do Paraná, também? Foi o que Lula falou.

Ninguém sabia disso, naturalmente, porque não foi isso que aconteceu. O ex-deputado não perdeu nem uma coisa nem outra por ter ficado amigo de Lula; perdeu ambas porque foi acusado, com o apoio de um cheque entregue a sua secretária, de extorquir 10.000 reais por mês do então concessionário do restaurante da Câmara. Severino não explicou o que fez. Renunciou ao cargo e ao mandato para escapar da cassação, depois que um discurso do deputado Fernando Gabeira, no qual foi descrito como "um desastre" para a Casa, o pôs para correr dali. Severino pode ser, como diz o presidente Lula, uma grande figura humana, mas não foi vítima de um ato de perseguição; foi vítima do que ele próprio, e mais ninguém, fez. Não se imagina o que a elite de São Paulo e menos ainda a do Paraná – por motivos desconhecidos, dessa vez sobrou para o Paraná – tenham a ver com isso. É difícil, também, culpar a direita pela renúncia do ex-deputado. Se alguém pode ser considerado, nessa história toda, como uma liderança na maré de indignação que surgiu com a denúncia, esse alguém é o deputado Gabeira. E o deputado Gabeira, por mais boa vontade que se tenha com Lula, seu governo e Severino, não é um político de direita. Não haveria nada de errado se fosse, mas ele simplesmente não é – e tem todos os atos do seu passado e do seu presente para atestar isso. Da elite paulista (ou paranaense), Gabeira certamente também não é. Talvez seja da elite, genérico que o governo costuma utilizar contra todas as pessoas de quem não gosta, mas nesse caso seria da elite de Minas Gerais, onde nasceu, ou do Rio de Janeiro, onde vive e faz sua carreira política. Nenhuma menção foi feita pelo presidente, enfim, ao fato de que Severino, após renunciar, tentou voltar à Câmara nas eleições de 2006. Não poderia haver oportunidade melhor para o povo de Pernambuco, com a força do voto livre e secreto, corrigir a injustiça feita pela elite de São Paulo e do Paraná, dando um novo mandato ao ex-deputado. Mas o povo de Pernambuco não quis dar um novo mandato ao ex-deputado. Quem é o culpado, então, por ele continuar fora da Câmara?

O presidente não parece preocupado com observações desse tipo; passa a impressão, ao contrário, de estar cada vez mais indiferente aos fatos, quando se lança em discursos como o da semana passada. Tanto faz, para ele, dizer que o baralho tem cinco naipes ou que o ângulo reto ferve a 90 graus – tudo serve, desde que acredite estar fazendo bonito com suas performances no palanque. É esquisito, também, que em todas as acusações de corrupção e de má conduta feitas nos últimos cinco anos Lula tenha tido até agora dois, e só dois, tipos de reação: ou fica em silêncio ou fica a favor do acusado. Toda a sua revolta cívica, em cada um desses casos, se dirige contra os autores das denúncias e contra a oposição em geral – que teve direito, no espetáculo de Pernambuco, de ouvir do presidente que não vai ganhar, de jeito nenhum, as eleições de 2010.

Seria de imaginar que Lula, a esta altura, estivesse um pouco mais calmo. Os resultados do seu governo, na economia, são os melhores que o Brasil vê há muitos anos. Sua popularidade, segundo todas as pesquisas de opinião, continua brilhante. Quanto aos adversários, enfim, não poderia haver oposição mais zen que a atual. Os seus principais líderes, os governadores Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra, de São Paulo, só se opõem entre si mesmos e fazem todos os malabarismos possíveis para demonstrar que são compreensivos e amigáveis em relação ao governo; comparado a eles, o Dalai-Lama parece um criador de caso. Nada disso adianta. Em vez de relaxar, o presidente fica cada vez mais irado. Por que será?

Lula deve saber o que está fazendo. Espera-se, francamente, que saiba mesmo – porque, se ele não souber, com certeza ninguém mais sabe.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Que falta faz um Voltaire

*por Reinaldo Azevedo, edição 2054 da revista Veja.

"O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: ‘Abaixo o socialismo!’.Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebrodos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O séculopassado viu nascer e morrer esse delírio totalitário"

Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?" Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.

A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...

Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade".

Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.

O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.

São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.

O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.

De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.

De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.

É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".

Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Eles se convidaram


*resenha, por Mary Del Priore - Historiadora.

Nova história da "Missão Francesa" mostra que ela não veio ao Brasil a chamado de dom João VI

Numa obra vigorosa e judiciosamente ilustrada, O Sol do Brasil (Companhia das Letras; 400 páginas; 55 reais), Lilia Moritz Schwarcz revisita um dos mitos da história da arte no Brasil: a Missão Francesa. Autora de vários livros sobre história cultural – como As Barbas do Imperador –, ela se debruça sobre o período de dom João VI no Brasil para oferecer ao leitor um amplo afresco sobre pintura e pintores e a relação de ambos com o cenário brasileiro. O fio condutor é Nicolas-Antoine Taunay. Nascido numa família de artesãos ligados à manufatura de Sèvres, Taunay integrou o grupo de emigrados que, por muito tempo, se acreditou "convidado" por dom João VI para trazer a civilidade francesa aos trópicos. O convite nunca existiu, e a tal "missão" francesa, que chegou ao Brasil em 1816, foi antes uma reunião fortuita de artistas.

Para refazer a viagem do paisagista francês, Lilia vai às raízes das relações entre o Brasil e a França. Teriam os relatos de Jean de Léry, no século XVI, e de outros viajantes de passagem colaborado para forjar um imaginário sobre a natureza brasileira? Tudo indica que sim, e que a moda das viagens pitorescas contribuiu para que um grupo de bonapartistas caídos em desgraça depois da derrota do imperador em Waterloo, em junho de 1815, resolvesse correr o risco de atravessar o Atlântico. A abundância de plantas e animais teria acenado como uma promessa de inspiração estética. Calcada no retorno ao passado, voltada para o primado da forma e o elogio da nação, a pintura neoclássica estava na raiz da formação de Taunay. Ombreando com artistas da mesma época ligados a diferentes gêneros – o histórico, os retratos, a paisagem –, como Jacques-Louis David ou Jean-Baptiste Greuze, Taunay vai bebendo nas várias fontes e aprimorando o próprio estilo. A grande figura de então era, sem dúvida, David, pintor do conhecido A Morte de Marat. Debret, outro membro célebre da chamada Missão Francesa, era primo de David e costumava freqüentar seu ateliê.

Esse foi também um momento em que a pintura ficou a serviço do estado. Sem cerimônia, podia servir a um rei Bourbon, passar do seu serviço ao dos sanguinários revolucionários e destes a Napoleão, que encarnava, nas telas de David, a noção de heroísmo. Napoleão era homenageado nos salões de pintura, enquanto Josefina, sua mulher, vivia cercada de artistas em cuja órbita girava Taunay. Quando o poder de Bonaparte começou a declinar, uma visível mudança na hierarquia de gêneros ocorreu: a pintura histórica, que retratava batalhas, cedeu espaço à paisagem, que se tornou sinônimo de terra natal e de pátria amada. A decisão de vir para o Brasil associava, portanto, duas tendências: a viagem em busca de repertórios paisagísticos novos e a fuga de uma Europa mergulhada em sangue e conflitos.

É nesse contexto que um grupo de artistas franceses se uniu para empreender a travessia. Sonhos individuais se cruzavam com coletivos: da fundação de uma Academia de Artes nos trópicos à aspiração de ser preceptor dos filhos do rei, como desejava Taunay. Eles chegaram à Baía de Guanabara em março de 1816. Lilia mostra que nada houve de convite oficial nem de garantia de emprego. Mas, afinal, quem inventou a Missão Francesa? Debret é o pai da história, que apresenta o grupo como um conjunto de generosos missionários que vieram ensinar beleza aos selvagens. Como quem conta um conto aumenta um ponto, ela foi se enfeitando graças a vários autores, de Araújo Porto Alegre a Morales de Los Rios. Até bater, já no século XX, em Mário Pedrosa e Donato Mello Júnior, que começaram a "desconstruir" o mito: foram eles, os franceses, que se convidaram. Eles quiseram vir. Não deu certo e os trópicos acabaram por expulsá-los. A tentativa de unir a valorização da monarquia com a paisagem natural, fórmula bem-sucedida na França, não funcionou aqui. Taunay não tinha alunos nem clientes, e, segundo ele, o país sofria de um grave "retardo cultural".

Essa sinfonia de informações é magistralmente dirigida por Lilia, que dialoga com autores de peso, como o historiador Simon Schama e o crítico de arte E.H. Gombrich. O Sol do Brasil é uma obra que nasce clássica. As outras tentativas de desconstruir a missão, por várias razões, não tiveram o mesmo calor nem o mesmo brilho.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Semana de Libertadores!

O técnico do Cruzeiro vem surpreendendo. O sistema defensivo está mais estável do que o do ano passado. Eu acreditava, no início da temporada, que a entrada de um terceiro volante seria prejudicial para o sistema ofensivo. Felizmente isso não ocorreu. Além de dar mais consistência a zaga, deixou Ramires e Charles mais à vontade para atacar. Resultado: os dois vêem jogando muitíssimo bem.
Outro que merece destaque é o meia Marcinho. Ano passado ele foi muito mal, mas podemos relevar grande parte da temporada, pois teve muitos problemas físicos. Ele é um bom jogador, e Adílson Batista sabe disso. Por isso confia no meia, que entrou em praticamente todos os jogos. Ainda não tem condições de ser titular, pois Wágner desequilibra.
O Caracas não teve chance alguma, foi dominado pelo time celeste. Se o Cruzeiro mostrar a mesma postura, vence facilmente os dois próximos compromissos pela Libertadores, um contra o mesmo Caracas lá na Venezuela, outro contra o San Lorenzo em casa. Fazendo isso, pode mandar o time reserva para Potosí, na última rodada.

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O Flamengo foi ridículo hoje. Perdeu de 3x0 do Nacional, no Uruguai. Teve dois jogadores expulsos. Uma delas foi ridícula, do mediano lateral Leonardo Moura. Isso foi bom para que o time caia na real. Está acostumado com o carioca, e ainda por cima jogando apenas no Maracanã. Se não começar a vencer fora de casa, não passará das oitavas na Libertadores.

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O São Paulo continua apresentando um futebol mediano. A vitória valeu pelos gols de Adriano, que precisava muito disso. Eu espero que ele melhore a cabeça, pois tem muito potencial.

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Fluminense humilhou o Arsenal. O golaço do Dodô foi sensacional!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

11000 justos.

*Artigo publicado na edição 2049 da revista Veja. Por J.R. Guzzo.

Em casos em que fica demonstrado o mau uso de dinheiro público existe, pelo mundo afora, um entendimento básico. As autoridades encarregadas de lidar com esse dinheiro têm ou não têm responsabilidade pelo que aconteceu de ilegal e, de acordo com a alternativa que for comprovada entre essas duas, são culpadas ou são inocentes. Se são culpadas, não são inocentes. Se são inocentes, não são culpadas. No Brasil, os governos têm uma abordagem diferente para esse tipo de coisa. Aqui, em casos semelhantes, não há inocentes nem culpados. Culpa sempre existe, é claro, já que o dinheiro do Erário não sai por aí se gastando sozinho. Mas as autoridades dão a questão por resolvida com um raciocínio que, tirando o palavrório habitual, sustenta o seguinte: "Algo lamentavelmente errado aconteceu, mas a culpa não é de ninguém – e principalmente não é nossa".


O poder público brasileiro, com o tempo, tem conseguido resultados notáveis no aperfeiçoamento desse sistema. Desenvolveu, por exemplo, o conceito segundo o qual a pessoa é inocente mesmo quando é culpada. A personagem-símbolo desse entendimento é a ex-ministra Matilde Ribeiro, musa no atual espetáculo estrelado pelos cartões de crédito do governo federal até ser superada pelo barulho contínuo de episódios mais interessantes e mais graúdos que o dela. Matilde, como se sabe, foi demitida do cargo, o que faria supor que é culpada – mas sai com uma declaração de que é inocente, já que o governo e seu partido garantem que ela realizou um trabalho "brilhante". Outra novidade, também aplicada às situações sem esperança como a dela, é a teoria do "erro administrativo". O dinheiro do público foi gasto em benefício pessoal? Sim, mas foi só um "erro administrativo" – como se o responsável tivesse assinado um despacho em seis vias, quando o certo seria assinar em sete. Muito avanço se obteve, enfim, na utilização desse sistema todo como arma de ataque e não apenas de defesa. Seu recurso mais comum, empregado em praticamente 100% das denúncias feitas contra o governo, é dizer que qualquer malfeitoria ora em apreciação já foi praticada antes e já foi praticada por outros, sobretudo pelos adversários. Qual é o problema, então? Sombriamente, pergunta-se "a quem interessa" a divulgação das denúncias.


É lógico que, quando as coisas ficam assim, vai se colher cada vez mais do mesmo. O Brasil seria um país de sorte se esse modelo de gestão pelo qual a propriedade do patrimônio público é do estado, mas o seu usufruto é privado, se limitasse aos 78 milhões de reais que o governo federal gasta por ano em seus cartões corporativos. A festa se espalha, hoje em dia, por governos dos estados e municípios, pelo Judiciário e pelo Legislativo. Para enriquecer a lista surgiu de repente a universidade, e, mais precisamente, a Universidade de Brasília. Ali o reitor Timothy Mulholland foi capaz de gastar 470.000 reais de dinheiro público, incluindo-se nesse total um espetacular saca-rolhas de 859 reais, na redecoração do seu "apartamento funcional". O mais interessante, no caso, não é o montante, nem mesmo o saca-rolhas; é a oportunidade de observar de que maneira funciona a cabeça de funcionários do estado como o reitor da UNB. Para ele, as despesas feitas no apartamento deixam muito bem impressionados os sábios de peso mundial convidados a Brasília, e, com isso, a ciência brasileira ganha prestígio. Ao ouvir suas explicações, vem a dúvida: será que o homem está falando sério? Logo fica claro, infelizmente, que está.


Tanto a oposição como o governo, além de muita gente de bem, têm passado os últimos dias defendendo o uso dos cartões do governo. Para a oposição, o problema está nas pessoas que os utilizam no momento; se e quando chegar ao governo, trocará todas elas por funcionários virtuosos e a situação ficará resolvida. Para o governo, o problema está em falhas nos controles, que naturalmente serão corrigidas a partir de agora – não se sabendo, nesse caso, por que passaram cinco anos sem ser percebidas. A primeira atitude é uma lenda. Sua receita só pode dar certo se, uma vez chegando lá, a oposição distribuir os cartões a 11.000 justos. E quem seria capaz de encontrar 11.000 justos de uma vez só? Nada comprova isso tão bem, justamente, quanto o sucedido com o PT, que prometia eliminar a corrupção no Brasil com a simples colocação da companheirada no governo; o resultado está aí. A segunda merece tanto crédito quanto a primeira. Controles sobre o uso de cartões são perfeitamente conhecidos, há décadas, por toda organização gerida com um mínimo de prudência. Mas só funcionam por uma razão: não são escritos pelos funcionários que serão controlados por eles.


Pessoas e intenções podem ser muito boas, mas a experiência comprova que nada é mais eficaz para combater o pecado do que eliminar a tentação. Não dá para fazer isso o tempo todo e em tudo. Mas, quando dá, o resultado sempre acaba aparecendo. Deixou de existir qualquer vestígio de corrupção nos bancos estaduais, para ficar num exemplo só, porque deixaram de existir os bancos estaduais. O resto é muita CPI e nenhuma mudança.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Um tesouro de família


*Reportagem retirada da edição 2049 da revista Veja.


Imagens feitas por filhos e neto de Marc Ferrez mostram novos ângulos do Brasil do século XX

Entre os pioneiros da fotografia no Brasil, o nome mais conhecido e a obra mais monumental são de Marc Ferrez (1843-1923). Seu acervo, conservado durante décadas por sua família, pertence hoje ao Instituto Moreira Salles. Agora, os Ferrez voltam à cena, com uma exposição de preciosidades garimpadas em outro acervo, que permanecia guardado em família e foi doado no ano passado ao Arquivo Nacional: as 8.000 imagens registradas pelos filhos do fotógrafo, Júlio e Luciano, e por um de seus netos, Gilberto. São fotografias inéditas, de alta qualidade técnica e excelente estado de conservação, que mostram paisagens urbanas e cenas do cotidiano do Brasil e do exterior entre 1910 e 1950. Um retrato precioso de uma época pouco estudada, na qual apenas um nome se destaca fora dos círculos especializados: o de Augusto Malta, fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936.
A exposição, que reúne 396 imagens da lavra de Júlio, Luciano e Gilberto Ferrez, tem curadoria de Pedro Karp Vasquez, grande estudioso da fotografia brasileira. Será inaugurada nesta semana no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e em data ainda a ser definida segue para São Paulo. Ela revela talentos que tinham na fotografia uma atividade intensa, embora secundária. Júlio, que assim como Luciano trabalhava no ramo de distribuição de filmes, chegou a publicar um manual para fotógrafos não profissionais, O Amador Photographo, em 1905. Gilberto Ferrez, que se notabilizou como pesquisador de história da fotografia, desde os 18 anos não saía de casa sem uma câmera.


No período retratado, a linguagem fotográfica passava por grande transformação, provocada pelo avanço da tecnologia. Os pioneiros da fotografia trabalhavam com trambolhos de 5 quilos, que exigiam acessórios de peso três vezes maior. A partir da virada do século XX, esses equipamentos foram sendo gradualmente substituídos por máquinas mais leves e versáteis. Nos anos 20, já havia modelos de menos de 1 quilo, que permitiam fotos com a câmera na mão e maior mobilidade. Graças a isso, perdeu espaço o fotógrafo de câmera e tripé, especializado em imagens posadas. Essa mudança, associada aos filmes em rolo, que substituíram as pesadas chapas de vidro, favoreceu o desenvolvimento da fotografia amadora, que registrava o cotidiano sob um viés mais espontâneo. "Começam a surgir fotos feitas informalmente, no seio da família ou durante viagens. E os Ferrez vivenciaram essa transformação dentro de casa", diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles.
Outro aspecto importante do acervo é que ele registra as muitas transformações urbanas do Brasil da época. A cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, passou por duas grandes reformas. A primeira, mais conhecida, foi a do prefeito Pereira Passos, em nome de uma modernização urbanística. A segunda começou nos anos 1930, pela mão do prefeito Henrique Dodsworth, responsável, entre outras grandes obras, pela abertura da Avenida Presidente Vargas. Além do Rio, há imagens preciosas de monumentos na Bahia, Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais na primeira metade do século passado. O legado de Marc Ferrez para a fotografia brasileira é considerado, há muito tempo, um dos mais significativos da história. Vê-se agora que, direta ou indiretamente, sua contribuição foi ainda maior.


**A foto de Luciano Ferrez mostra um panorama de São Conrado, em 1933: praia deserta e a favela da Rocinha nascendo ao fundo