segunda-feira, 31 de março de 2008

Que falta faz um Voltaire

*por Reinaldo Azevedo, edição 2054 da revista Veja.

"O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: ‘Abaixo o socialismo!’.Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebrodos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O séculopassado viu nascer e morrer esse delírio totalitário"

Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?" Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.

A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...

Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade".

Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.

O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.

São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.

O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.

De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.

De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.

É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".

Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Eles se convidaram


*resenha, por Mary Del Priore - Historiadora.

Nova história da "Missão Francesa" mostra que ela não veio ao Brasil a chamado de dom João VI

Numa obra vigorosa e judiciosamente ilustrada, O Sol do Brasil (Companhia das Letras; 400 páginas; 55 reais), Lilia Moritz Schwarcz revisita um dos mitos da história da arte no Brasil: a Missão Francesa. Autora de vários livros sobre história cultural – como As Barbas do Imperador –, ela se debruça sobre o período de dom João VI no Brasil para oferecer ao leitor um amplo afresco sobre pintura e pintores e a relação de ambos com o cenário brasileiro. O fio condutor é Nicolas-Antoine Taunay. Nascido numa família de artesãos ligados à manufatura de Sèvres, Taunay integrou o grupo de emigrados que, por muito tempo, se acreditou "convidado" por dom João VI para trazer a civilidade francesa aos trópicos. O convite nunca existiu, e a tal "missão" francesa, que chegou ao Brasil em 1816, foi antes uma reunião fortuita de artistas.

Para refazer a viagem do paisagista francês, Lilia vai às raízes das relações entre o Brasil e a França. Teriam os relatos de Jean de Léry, no século XVI, e de outros viajantes de passagem colaborado para forjar um imaginário sobre a natureza brasileira? Tudo indica que sim, e que a moda das viagens pitorescas contribuiu para que um grupo de bonapartistas caídos em desgraça depois da derrota do imperador em Waterloo, em junho de 1815, resolvesse correr o risco de atravessar o Atlântico. A abundância de plantas e animais teria acenado como uma promessa de inspiração estética. Calcada no retorno ao passado, voltada para o primado da forma e o elogio da nação, a pintura neoclássica estava na raiz da formação de Taunay. Ombreando com artistas da mesma época ligados a diferentes gêneros – o histórico, os retratos, a paisagem –, como Jacques-Louis David ou Jean-Baptiste Greuze, Taunay vai bebendo nas várias fontes e aprimorando o próprio estilo. A grande figura de então era, sem dúvida, David, pintor do conhecido A Morte de Marat. Debret, outro membro célebre da chamada Missão Francesa, era primo de David e costumava freqüentar seu ateliê.

Esse foi também um momento em que a pintura ficou a serviço do estado. Sem cerimônia, podia servir a um rei Bourbon, passar do seu serviço ao dos sanguinários revolucionários e destes a Napoleão, que encarnava, nas telas de David, a noção de heroísmo. Napoleão era homenageado nos salões de pintura, enquanto Josefina, sua mulher, vivia cercada de artistas em cuja órbita girava Taunay. Quando o poder de Bonaparte começou a declinar, uma visível mudança na hierarquia de gêneros ocorreu: a pintura histórica, que retratava batalhas, cedeu espaço à paisagem, que se tornou sinônimo de terra natal e de pátria amada. A decisão de vir para o Brasil associava, portanto, duas tendências: a viagem em busca de repertórios paisagísticos novos e a fuga de uma Europa mergulhada em sangue e conflitos.

É nesse contexto que um grupo de artistas franceses se uniu para empreender a travessia. Sonhos individuais se cruzavam com coletivos: da fundação de uma Academia de Artes nos trópicos à aspiração de ser preceptor dos filhos do rei, como desejava Taunay. Eles chegaram à Baía de Guanabara em março de 1816. Lilia mostra que nada houve de convite oficial nem de garantia de emprego. Mas, afinal, quem inventou a Missão Francesa? Debret é o pai da história, que apresenta o grupo como um conjunto de generosos missionários que vieram ensinar beleza aos selvagens. Como quem conta um conto aumenta um ponto, ela foi se enfeitando graças a vários autores, de Araújo Porto Alegre a Morales de Los Rios. Até bater, já no século XX, em Mário Pedrosa e Donato Mello Júnior, que começaram a "desconstruir" o mito: foram eles, os franceses, que se convidaram. Eles quiseram vir. Não deu certo e os trópicos acabaram por expulsá-los. A tentativa de unir a valorização da monarquia com a paisagem natural, fórmula bem-sucedida na França, não funcionou aqui. Taunay não tinha alunos nem clientes, e, segundo ele, o país sofria de um grave "retardo cultural".

Essa sinfonia de informações é magistralmente dirigida por Lilia, que dialoga com autores de peso, como o historiador Simon Schama e o crítico de arte E.H. Gombrich. O Sol do Brasil é uma obra que nasce clássica. As outras tentativas de desconstruir a missão, por várias razões, não tiveram o mesmo calor nem o mesmo brilho.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Semana de Libertadores!

O técnico do Cruzeiro vem surpreendendo. O sistema defensivo está mais estável do que o do ano passado. Eu acreditava, no início da temporada, que a entrada de um terceiro volante seria prejudicial para o sistema ofensivo. Felizmente isso não ocorreu. Além de dar mais consistência a zaga, deixou Ramires e Charles mais à vontade para atacar. Resultado: os dois vêem jogando muitíssimo bem.
Outro que merece destaque é o meia Marcinho. Ano passado ele foi muito mal, mas podemos relevar grande parte da temporada, pois teve muitos problemas físicos. Ele é um bom jogador, e Adílson Batista sabe disso. Por isso confia no meia, que entrou em praticamente todos os jogos. Ainda não tem condições de ser titular, pois Wágner desequilibra.
O Caracas não teve chance alguma, foi dominado pelo time celeste. Se o Cruzeiro mostrar a mesma postura, vence facilmente os dois próximos compromissos pela Libertadores, um contra o mesmo Caracas lá na Venezuela, outro contra o San Lorenzo em casa. Fazendo isso, pode mandar o time reserva para Potosí, na última rodada.

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O Flamengo foi ridículo hoje. Perdeu de 3x0 do Nacional, no Uruguai. Teve dois jogadores expulsos. Uma delas foi ridícula, do mediano lateral Leonardo Moura. Isso foi bom para que o time caia na real. Está acostumado com o carioca, e ainda por cima jogando apenas no Maracanã. Se não começar a vencer fora de casa, não passará das oitavas na Libertadores.

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O São Paulo continua apresentando um futebol mediano. A vitória valeu pelos gols de Adriano, que precisava muito disso. Eu espero que ele melhore a cabeça, pois tem muito potencial.

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Fluminense humilhou o Arsenal. O golaço do Dodô foi sensacional!